Hoje é o dia,
Em que eu disse que te escrevia,
Um dos mais belos versos,
Longe de todos os seres perversos.
Enquanto o faço,
Caio no sono intenso,
E na madrugada vou despertar,
Para assim escutar,
A verdade pesando imenso:
Uma solidão dura como o aço.
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio
Na foz, onde o rio acaba,
E o mar começa.
Turvas águas tornando-se cristalinas,
Turbulência derrotando a quietude.
A luta das diferentes águas,
Reclamando a vitória.
Opostos estados líquidos,
Pares em composição.
Nem aos paredões graníticos,
Ou aos bancos de areia
É possível o controle dessa discórdia.
Não há sequer a mais ténue visão
De um farol que guie essa eterna procissão.
As bússolas não se encontram,
Gastos estão os astrolábios,
Ofereceram-se os mapas ao velho Adamastor.
Até a estrela polar recusa brilhar,
Enquanto a diferença não se torne
Nota de identidade: água só!
E o mar começa.
Turvas águas tornando-se cristalinas,
Turbulência derrotando a quietude.
A luta das diferentes águas,
Reclamando a vitória.
Opostos estados líquidos,
Pares em composição.
Nem aos paredões graníticos,
Ou aos bancos de areia
É possível o controle dessa discórdia.
Não há sequer a mais ténue visão
De um farol que guie essa eterna procissão.
As bússolas não se encontram,
Gastos estão os astrolábios,
Ofereceram-se os mapas ao velho Adamastor.
Até a estrela polar recusa brilhar,
Enquanto a diferença não se torne
Nota de identidade: água só!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Maria
Maria seguia timidamente pela estrada,
Decidida no caminho a percorrer,
Indecisa no final que a aguardava.
Seguia Maria confiante pela berma,
Protegendo o rosto do frio cortante,
Abrigando a espalda com o manto negro.
Maria seguia, sem forças, pelos trilhos,
Esqueleto vergado ao peso dos anos,
Pés gastos nos atalhos da existência.
Seguia Maria, derrotada pelos séculos,
Olhos turvos de água
Cegos ao presente que a encara.
Segui Maria, entre as sendas do tempo,
Enquanto Maria seguia agora, arrastando o seu cadáver.
Decidida no caminho a percorrer,
Indecisa no final que a aguardava.
Seguia Maria confiante pela berma,
Protegendo o rosto do frio cortante,
Abrigando a espalda com o manto negro.
Maria seguia, sem forças, pelos trilhos,
Esqueleto vergado ao peso dos anos,
Pés gastos nos atalhos da existência.
Seguia Maria, derrotada pelos séculos,
Olhos turvos de água
Cegos ao presente que a encara.
Segui Maria, entre as sendas do tempo,
Enquanto Maria seguia agora, arrastando o seu cadáver.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Diz-me tu, ó sábio feiticeiro,
quanto tempo falta ao tempo,
para o futuro ao passado voltar,
caindo sobre nós o destino sobranceiro?
Explica-me bem,
essa força arrastando o mundo,
precipitando-o no sabido abismo,
Que de fundo se faz mais profundo.
Mostra-me já, ó sábio feiticeiro,
o tempo que me resta,
nesta vida que não presta.
quanto tempo falta ao tempo,
para o futuro ao passado voltar,
caindo sobre nós o destino sobranceiro?
Explica-me bem,
essa força arrastando o mundo,
precipitando-o no sabido abismo,
Que de fundo se faz mais profundo.
Mostra-me já, ó sábio feiticeiro,
o tempo que me resta,
nesta vida que não presta.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Sonho (2)
Ontem sonhei que sonhava
e me mantinha desperto
contente por escapar
de um mundo que me era incerto
seguro porque voltava
ao que é lógico e real
à vida que firme sabe
do que é bem e do que é mal
quando tornei a dormir
já rompia a madrugada
e na clara luz não tinha
certeza de nada
Agostinho da Silva
e me mantinha desperto
contente por escapar
de um mundo que me era incerto
seguro porque voltava
ao que é lógico e real
à vida que firme sabe
do que é bem e do que é mal
quando tornei a dormir
já rompia a madrugada
e na clara luz não tinha
certeza de nada
Agostinho da Silva
Puebla de Lillo, 01/01/2010
De uma qualquer janela
Observo aquele decidido manto branco,
Agasalhando o solo indefeso.
A surripiadora águia rasgando os altos céus
Em busca do inocente alimento.
Tímidas lebres invisíveis,
Resguardadas nas suas tocas.
Lá fogem as nuvens,
Prometendo violentas tempestades.
E lá segue o vento,
Descendo as montanhas,
Assomando aqueles que o evocam.
E eu sou, um tímido floco de neve,
Aos tropelões pela atmosfera,
Que se liquefaz num ramo de urze.
Observo aquele decidido manto branco,
Agasalhando o solo indefeso.
A surripiadora águia rasgando os altos céus
Em busca do inocente alimento.
Tímidas lebres invisíveis,
Resguardadas nas suas tocas.
Lá fogem as nuvens,
Prometendo violentas tempestades.
E lá segue o vento,
Descendo as montanhas,
Assomando aqueles que o evocam.
E eu sou, um tímido floco de neve,
Aos tropelões pela atmosfera,
Que se liquefaz num ramo de urze.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
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