Enlouquecer
e de repente,
não são as vagas contra o corpo,
nem o vento que acaricia o cabelo,
não é a chuva que lava a alma,
nem o ar que me entranha
e de repente,
és tu que me tomas em silêncio,
embarcas-me no teu dorso,
traças as curvas do meu corpo,
sacias a sede da minha boca,
e de repente,
somos pedaços de terra,
banhados por mar,
sou um pedaço de terra, banhado no teu mar
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
sexta-feira, 11 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Estudo L
Aos pedaços
sabes que tenho medo,
deitada nos teus lençóis,
acariciada pela tua respiração,
ao acaso no quarto,
sabes que tenho medo,
quando viajo no teu corpo,
e arquejo o meu peito
secretamente preso no teu,
sempre soubeste que tenho medo,
quando me tomas na tua boca
sabe que já não tenho medo,
quando me engoles de uma só vez,
aos pedaços
sabes que tenho medo,
deitada nos teus lençóis,
acariciada pela tua respiração,
ao acaso no quarto,
sabes que tenho medo,
quando viajo no teu corpo,
e arquejo o meu peito
secretamente preso no teu,
sempre soubeste que tenho medo,
quando me tomas na tua boca
sabe que já não tenho medo,
quando me engoles de uma só vez,
aos pedaços
Chamada
chama a noite,
os corpos desnudos, deitados,
respirando mecanicamente,
contornos desenhados pelo frio dos lençóis,
no silêncio dos quartos,
contorcem-se os troncos suavemente,
apertam-se as pernas em desespero,
o bafo quente é visitante,
aí, na solidão dos dias longos,
onde habita o pecado,
deixamos os corpos tenros,
arder até ao fim

Foto Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
os corpos desnudos, deitados,
respirando mecanicamente,
contornos desenhados pelo frio dos lençóis,
no silêncio dos quartos,
contorcem-se os troncos suavemente,
apertam-se as pernas em desespero,
o bafo quente é visitante,
aí, na solidão dos dias longos,
onde habita o pecado,
deixamos os corpos tenros,
arder até ao fim

Foto Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
terça-feira, 8 de junho de 2010
Vida(s)
Um segundo,
vê-me.
Dois segundos,
nada.
Três segundos,
nada ainda.
Quatro segundos,
toca-me.
Cinco segundos,
toco-te.
Seis segundos,
Parámos.
(Silêncio)
Sete segundos,
beijamo-nos.
Oito segundos,
a repetição.
Nove segundos,
e de novo.
Dez segundos,
a tempestade.
Onze segundos,
o silêncio.
Séculos apenas,
sozinhos.

Skull, Andy Wharhol, 1976
vê-me.
Dois segundos,
nada.
Três segundos,
nada ainda.
Quatro segundos,
toca-me.
Cinco segundos,
toco-te.
Seis segundos,
Parámos.
(Silêncio)
Sete segundos,
beijamo-nos.
Oito segundos,
a repetição.
Nove segundos,
e de novo.
Dez segundos,
a tempestade.
Onze segundos,
o silêncio.
Séculos apenas,
sozinhos.

Skull, Andy Wharhol, 1976
domingo, 6 de junho de 2010
Estudo XLIX
Desculpas?
tens razão, devia ter trazido as maçãs,
perdi-me entre árvores de betão,
seduzi os pássaros do alcatrão,
tens razão, nunca faço o que dizes,
bebi do néctar proibido,
fui mordida por lobos que uivam,
tens razão, venho sempre sem nada,
mas sabes?
na verdade, eu comi as maçãs

Sem Título, Mário Cesariny
tens razão, devia ter trazido as maçãs,
perdi-me entre árvores de betão,
seduzi os pássaros do alcatrão,
tens razão, nunca faço o que dizes,
bebi do néctar proibido,
fui mordida por lobos que uivam,
tens razão, venho sempre sem nada,
mas sabes?
na verdade, eu comi as maçãs

Sem Título, Mário Cesariny
Estudo XLVIII
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