«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Estudo LI

Enlouquecer

e de repente,
não são as vagas contra o corpo,
nem o vento que acaricia o cabelo,
não é a chuva que lava a alma,
nem o ar que me entranha

e de repente,
és tu que me tomas em silêncio,
embarcas-me no teu dorso,
traças as curvas do meu corpo,
sacias a sede da minha boca,

e de repente,
somos pedaços de terra,
banhados por mar,
sou um pedaço de terra, banhado no teu mar

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Estudo L

Aos pedaços

sabes que tenho medo,
deitada nos teus lençóis,
acariciada pela tua respiração,
ao acaso no quarto,

sabes que tenho medo,
quando viajo no teu corpo,
e arquejo o meu peito
secretamente preso no teu,

sempre soubeste que tenho medo,
quando me tomas na tua boca

sabe que já não tenho medo,
quando me engoles de uma só vez,
aos pedaços

Chamada

chama a noite,
os corpos desnudos, deitados,
respirando mecanicamente,
contornos desenhados pelo frio dos lençóis,

no silêncio dos quartos,
contorcem-se os troncos suavemente,
apertam-se as pernas em desespero,
o bafo quente é visitante,

aí, na solidão dos dias longos,
onde habita o pecado,
deixamos os corpos tenros,
arder até ao fim


Foto Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

terça-feira, 8 de junho de 2010

Vida(s)

Um segundo,
vê-me.
Dois segundos,
nada.
Três segundos,
nada ainda.
Quatro segundos,
toca-me.
Cinco segundos,
toco-te.
Seis segundos,
Parámos.

(Silêncio)

Sete segundos,
beijamo-nos.
Oito segundos,
a repetição.
Nove segundos,
e de novo.
Dez segundos,
a tempestade.
Onze segundos,
o silêncio.

Séculos apenas,
sozinhos.


Skull, Andy Wharhol, 1976

domingo, 6 de junho de 2010

Mad Rush

Estudo XLIX

Desculpas?

tens razão, devia ter trazido as maçãs,
perdi-me entre árvores de betão,
seduzi os pássaros do alcatrão,

tens razão, nunca faço o que dizes,
bebi do néctar proibido,
fui mordida por lobos que uivam,

tens razão, venho sempre sem nada,
mas sabes?
na verdade, eu comi as maçãs


Sem Título, Mário Cesariny

Estudo XLVIII

Despertar

fecho os olhos,
é o teu abraço que me envolve,
fecho os olhos,
o vento agita a seara de trigo,
fecho os olhos,
os teus lábios na minha boca,
fecho os olhos,

e é o teu rio em mim,
de olhos bem abertos


Les jours gigantesques, René Magritte