«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

domingo, 7 de março de 2010

Frio

Prometeu traria o fogo,
Aos humanos desconfiados,
Seria suficiente para os destruir,
Inútil para os aquecer.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Existem,
Emaranhados entre ramos,
Das vastas florestas,
Os muros de betão,
Construídos por Deus
Destruídos pelo Homem.
Mostra-me os despojos,
Do amor estuprado,
Nas horas perdidas,
Dos dias sem calendário.

Deixa-me procurar,
Esses estranhos pedaços caídos,
Nas ruas sem nome,
Da distante Babilónia.

Mata-me lentamente,
Ou mata-te rapidamente.

terça-feira, 2 de março de 2010

Deixei-me cair,
Nessa teia urdida de mel,
Aprendendo a longa espera,
Do beijo perdido.
(De fel).

Permaneci no silêncio
Da toca vazia,
Iludindo o toque,
Com sabor de carícia.
(Que corta).

(Fiquei.).
(Imóvel.).
(Só.).
Amo.
(Ou não.).

Verme

Levanta-te.
Pequena criatura,
De pés disformes assentes no solo.
Apoia tua imagem,
Nas pernas bambas,
Ausentes de músculo.

Corre nesse rio,
De vastidão limitada,
Entre margens de pânico.
Foge dessa multidão,
Assomando em pranto
Na soleira da tua porta.

Mata o bicho.

Aviso

Que se dane,
Esse minúsculo universo.
Cromado.
Metricamente descansando,
Num pechiché de luxo.

Que se cale,
A voz metálica do saber.
Asséptica.
Conspurcando os dias,
Cerrados em horas.

Que se dane.
Que se danem.


Aviso: O presente texto foi colocado à leitura daqueles que, num dia, o perceberam.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Rua Passos Manuel

I
Parece que só chove,
Nesta abatida cidade.
E eu que me esqueci
De dar corda às flores.

II
Adivinho o que encontrar,
No fim da íngreme subida.
E eu que perdi
A âncora das nuvens.

III
Finto os homens robot,
Iludindo a esperança.
E eu que nunca tive
A chave do Universo.